E então, o príncipe altivo gritou de cima do monte:Os ecos de suas palavras foram os únicos ruídos de resposta.
- Seja quem fores tu. Estou aqui para resgatar-te.
Novamente os ecos e em seguida o silêncio fúnebre do entardecer predominava à sua volta.
O príncipe então suspirou com melancolia e começou a descer do monte. Pelos sulcos de sua face descia uma densa lágrima e seu olhar vazio demonstrava a profunda decepção que habitava seus pensamentos. Descia com passos pesados e vagarosos, como se o corpo fosse um fardo a ser carregado.
Então, ao desviar de uma fenda no chão, tropeçou em algo que pareceu ser um galho espinhoso e retorcido e, pela dor causada ou pelo simples susto, perdeu o equilíbrio e rolou desengonçadamente, caindo sobre uma grande pedra plana. Endireitou-se sem ânimo, de forma a sentar-se, e ao fazê-lo avistou um ser aparentemente humano, mas de características estranhas que ele não saberia distinguir.
A criatura o encarava, soltando uma enorme gargalhada, sentada sobre a mesma grande pedra. O que lhe causou certa irritação:- Sim - Respondeu a criatura sem constrangimento.
- E o que há de tão engraçado?
- Tudo, oras! Já é a milésima vez que lhe vejo tentando resgatar alguém, que eu nem faço idéia de quem seja, e hoje, além da frustração de sempre, conseguiu um belo arranhão na panturrilha!
- Que espécie de pessoa você...
- Um anjo. Não sou uma pessoa, sou um anjo...
- Pois, você, um anjo. Nunca se equivocou com seu próprio coração?
- Coração? – E a feição antes debochada do anjo tomou a forma de um leve e confuso despeito – Acho que não tenho um coração!
- Sorte a sua!
- Também não sei o que é sorte.
- Ainda assim a tem, por não saber que tem um coração! Agora me deixe, pois preciso continuar meu caminho.
- Espere... Quando você vai assim, sinto algo dentro de mim...
- Um alívio?
- Não. Não é algo que gosto de sentir, é como um vazio entre os músculos e os ossos.
- Um vazio?! Mas como pode sentir um vazio pela ausência de alguém, se nem acredita ter um coração?
- Não sei, você pode me explicar?
- Eu? Não entendo nem os meus problemas! Mas posso tentar lhe ajudar, se for breve. Aliás, mostra-me como os anjos voam?
- Eu também não sei voar!
- O que você sabe então?
- Saberei tudo o que você me ensinar! Volte e fique aqui comigo, para que me ensine tudo.
- Quer mesmo? E se você se cansar de mim?
- Só me cansarei de você, quando me ensinar isso, se cansando de mim primeiramente.
- Mas ainda tenho uma missão. Preciso resgatar alguém!
- Quando você subiu este monte hoje, buscava alguém para resgatar, mas não escutou som algum, por que ainda não compreendia a linguagem de quem procurava. Mas ao tropeçar na rosa que eu cultivava, entrou em contato com o que eu tinha de mais precioso, por isso me tornei vulnerável e visível a seus sentidos e você, por ingênua curiosidade, acreditou em meus sentimentos que ainda nem existem. Resgatou-me enfim de minha solidão...Agora volte para que ensine tudo!
