O dia estava frio, mas o corpo suava todo. Os cabelos negros e escorridos lhe caiam sobre a testa molhados e embaraçados.De cima de sua cama o pequeno menino se encolhia nervoso contra a cabeceira, olhando fixamente para o vão inferior da porta, como se dali fosse saltar a mais incrível de suas fantasias. Seus olhos esbugalhados e ansiosos relutavam para não piscarem, medrosos de perder qualquer detalhe. A boca contraia-se contra os dentes e abria-se somente para recuperar o ar que lhe faltava em intervalos periódicos. Os pés minúsculos voltados para dentro comprimiam o travesseiro macio. Seu tronco pequenino encolhia-se sobre as mãos que, apoiadas nos joelhos, agarravam o lençol listrado inexoravelmente, marcando-o com seus sulcos delicados.
A espera lhe torturava o coração. Conseguiria sobreviver àquela espera? Por que é que ela não chegava? N
ão teria sentido o mesmo que ele? Impossível! Lembrava com exatidão, como se fosse o momento mais fantástico que tivera vivido, quando se encontraram pela primeira vez... Não é possível que somente ele havia sentido... Ela também deveria ter sentido, ele sabia que sim... Ela sentiu, claro que sentiu! E também deve estar ansiosa para reencontrá-lo hoje, o dia tão esperado. Mas por que demorava tanto? Por que é que ela não chegava?O coração palpitava forte. Sentia-se cansado; seria mais fácil se tivesse corrido milhares de quarteirões sem descanso. O pulmão não era grande o bastante para respirar todo o ar que necessitava naquele momento. O corpo tremia por inteiro numa sensação indescritível de
descontrole e rebeldia...E então um estalo na porta denunciava que finalmente haviam chegado, ela havia chegado! Agora ele deveria ir até ela e mostrar tudo o que sentia, dizer que sentia saudades, abraçá-la e... Mas sequer respirava, permanecia estático, sem ação, sem coragem... E em seu pequeno conflito interno ele permanecia, enquanto a ouvia se aproximando lentamente... Enquanto vivia a sensação de finalmente tê-la ali... Enquanto escutava o doce som que ela fazia quando andava pelo assoalho do corredor... Enquanto saboreava a sensação de finalmente ter sua primeira bicicleta!
A marcha nupcial já estava nos últimos tons e nenhuma pétala havia sido pisada. Os últimos raios solares do dia atravessavam os vidros empoeirados da igreja. As flores pareciam ser as únicas coisas ainda vivas naquele lugar. Não havia emoção, não havia lágrimas, nada...
scondiam por entre a cauda de seu vestido amarelado. O grande laço em sua cintura havia sido desfeito e o pano estava estirado sobre a escada, sem beleza, sem forma, sem vida.
E então, o príncipe altivo gritou de cima do monte:
A criatura o encarava, soltando uma enorme gargalhada, sentada sobre a mesma grande pedra. O que lhe causou certa irritação:
- Quando você subiu este monte hoje, buscava alguém para resgatar, mas não escutou som algum, por que ainda não compreendia a linguagem de quem procurava. Mas ao tropeçar na rosa que eu cultivava, entrou em contato com o que eu tinha de mais precioso, por isso me tornei vulnerável e visível a seus sentidos e você, por ingênua curiosidade, acreditou em meus sentimentos que ainda nem existem. Resgatou-me enfim de minha solidão...